Pobre do povo que precisa de ídolo, arrisco-me a parafrasear o Bertolt Brecht de Galileu Galilei. Ainda assim a tevê insiste, aquela dos eventos esportivos. Desprovido, há quase duas décadas, o panteão épico do carisma de Ayrton Senna, que, a despeito de suas façanhas na pista e dos brados do adulador Galvão Bueno, só veio a ser plenamente reconhecido, e chorado, com sua morte prematura, todo o empenho empreendido desde então em prol de um ídolo tem sido frustrado.
Não me refiro ao futebol, que, bem ou mal, consegue agasalhar Ronaldos e Ronaldinhos em sua liturgia estelar e exaure a paciência alheia com a overdose midiática de um Neymar, o qual, agora desterrado para a Espanha, pode dar trégua às embevecidas mesas-redondas do domingo. De todo modo, o futebol sabe cultivar sua hagiografia. Quando a coisa está muito feia, até o Felipão vira santo.
Modalidades outras que geram para a tevê importante receita publicitária tentam em vão identificar o xodó capaz de ancorar uma paixão nacional. A Fórmula 1 gerou Barrichello e Massa, mas não um ídolo pop. Da mesma forma, continua sendo impossível buscar na Indy um arremedo de Senna, já que até o simpático Helinho Castroneves entregou de bandeja qualquer traço de identidade brasileira em meio àquela cacofonia de gringos.
Neste fim de semana, ruiu como uma torre gigante a tentativa de consagrar mais um herói canarinho. Desta vez no mais medonho dos esportes, o Ultimate Fight. A bordo de uma malemolência que escondia arrogância, Anderson Silva caiu aos pés de Chris Weidman. A esperança é que, junto com Silva, a UFC também tenha desmoronado no Brasil.
Carta Capital
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